om as montanhas
vermelhas de Dorne às suas costas e os mantos brancos
ondulando ao vento. E esses três vultos não eram sombras;
seus rostos eram claros como brasas, mesmo agora. Sor
Arthur Dayne, a Espada da Manhã, tinha um sorriso triste
nos lábios. O cabo da grande espada chamada Alvorada
espreitava-o por sobre o ombro direito. Sor Oswell Whent
apoiava-se no joelho, afiando sua lâmina com uma pedra de
polir. O morcego negro de sua Casa estendia as asas sobre o
elmo esmaltado de branco. Entre os dois, erguia-se o velho e
feroz Sor Gerold Hightower, o Touro Branco, Senhor
Comandante da Guarda Real.
- Procurei-os no Tridente - disse-lhes Ned.
- Não estávamos lá - respondeu Sor Gerold.
- Seria uma aflição para o Usurpador se tivéssemos estado -
continuou Sor Oswell.
- Quando Porto Real caiu, Sor Jaime matou o vosso rei com
uma espada dourada, e eu me pergunto onde estariam.
- Longe - disse Sor Gerold -, caso contrário, Aerys ainda
possuiria o Trono de Ferro e o nosso falso irmão estaria
ardendo nos sete infernos.
- Eu vim a Ponta Tempestade para levantar o cerco - disse-
lhes Ned -, e os senhores Tyrell e Redwyne baixaram os
estandartes, e todos os seus cavaleiros dobraram os joelhos
para nos jurar fidelidade. Tinha certeza de que os encontraria
entre eles.
- Nossos joelhos não se dobram facilmente - disse Sor Arthur
Dayne.
- Sor Willem Darry fugiu para Pedra do Dragão, com a sua
rainha e o Príncipe Viserys, Pensei que pudessem ter velejado
com ele.
- Sor Willem é um homem bom e leal - disse Sor Oswell.
- Mas não pertence à Guarda Real - fez notar Sor Gerold. - A
Guarda Real não foge.
- Nem ontem, nem hoje - confirmou Sor Arthur, e preparou o
elmo.
- Fizemos um juramento - explicou o velho Sor Gerold.
Os espectros de Ned puseram-se ao seu lado, com espadas
fantasmagóricas nas mãos. Eram sete contra três.
- E hoje começa - disse Sor Arthur Dayne, a Espada da
Manhã. Desembainhou Alvorada e a segurou com ambas as
mãos. A lâmina era pálida como vidro leitoso, viva de luz.
- Não - disse Ned com tristeza na voz. - Hoje termina - no
momento em que eles atacaram juntos numa confusão de aço
e sombras, pôde ouvir Lyanna gritar.
- Eddard! - ela chamou. Uma tempestade de pétalas de rosa
soprou através de um céu riscado de sangue, azul como os
olhos da morte.
- Lorde Eddard - Lyanna chamou de novo.
- Prometo - sussurrou ele. - Lya, prometo...
- Lorde Eddard - ecoou a voz de um homem, vinda da
escuridão.
Gemendo, Eddard Stark abriu os olhos. O luar escorria
através das altas janelas da Torre da Mão.
- Lorde Eddard? - uma sombra erguia-se sobre a cama.
- Quanto... quanto tempo? - os lençóis estavam presos, a
perna revestida de talas e gesso. Um surdo latejar de dor
subia-lhe pelo flanco.
- Seis dias e sete noites - a voz pertencia a Vayon Poole. O
intendente encostou uma taça nos lábios de Ned. - Beba,
senhor.
-Quê...?
- Apenas água. Meistre Pycelle disse que teria sede.
Ned bebeu. Tinha os lábios secos e rachados. A água era doce
como mel.
- O rei deixou ordens - disse-lhe Vayon Poole quando a taça
ficou vazia. - Deseja falar com o senhor.
- Amanhã - disse Ned. - Quando estiver mais forte - naquele
momento não podia enfrentar Robert. O sonho deixara-o
fraco como um gatinho.
- Senhor - disse Poole -, ele nos ordenou que o enviássemos até
ele no momento em que abrisse os olhos - o intendente
tratava de acender uma vela de cabeceira.
Ned praguejou lentamente. Robert nunca fora conhecido pela
sua paciência.
- Diga-lhe que estou fraco demais para ir vê-lo. Se deseja falar
comigo, ficarei feliz por recebê-lo aqui. Espero que o acorde
de um sono profundo. E chame... - preparava-se para dizer
Jory quando se lembrou. - Chame o capitão da minha guarda.
Alyn entrou no quarto pouco depois de o intendente se
retirar.
- Senhor.
- Poole disse-me que passaram seis dias - disse Ned. - Tenho
de saber em que pé estão as coisas.
- O Regicida fugiu da cidade - disse-lhe Alyn. - Diz-se que
voltou a Rochedo Casterly para se juntar ao pai. A história
sobre o modo como a Senhora Catelyn capturou o Duende
está em todos as bocas. Reforcei a guarda, com a vossa
licença.
- Está dada - assegurou-lhe Ned. - As minhas filhas?
-Têm estado com o senhor todos os dias. Sansa reza em
silêncio, mas Arya... - hesitou. - Ela não disse uma palavra
desde que o trouxeram. É uma coisinha feroz, senhor. Nunca
vi tamanha ira numa menina.
- Aconteça o que acontecer - disse Ned -, quero que minhas
filhas sejam mantidas a salvo. Temo que isto seja apenas o
princípio.
- Nenhum mal lhes acontecerá, Lorde Eddard - disse Alyn, -
Coloco nisso a minha vida.
- Jory e os outros...
- Entreguei-os às irmãs silenciosas, a fim de serem enviados
para o norte, para Winterfell. Jory gostaria de jazer junto ao
avô.
Teria de ser o avô, pois o pai de Jory estava enterrado muito
ao sul. Martyn Cassei perecera com os outros. Ned colocara
depois a torre abaixo, e usara suas pedras sangrentas para
construir oito montes sepulcrais no topo daquela colina.
Dizia-se que Rhaegar chamara àquele lug